
A segunda mesa temática do webinário “Por uma universidade antirracista”, realizada na noite de quarta-feira (10), trouxe mais um tema fundamental: “Sentidos de saúde para negros e indígenas”. O médico psiquiatra Lucas Mendes e a psicóloga indígena Kaingang Rejane Nunes discutiram a formação profissional em saúde, com a mediação do acadêmico de medicina Carlos Vieira. Acesse no canal do YouTube da UFCSPA
O psiquiatra abordou o racismo estrutural na sociedade e a necessidade de se refletir sobre este tema dentro da educação. “Racismo é uma criação cultural intencional da escravização das pessoas negras africanas, por isso que a ação inversa requer muita intenção também”, afirma. Segundo Lucas, apesar de no Brasil existir o mito da democracia racial, o racismo não deixou de existir, foi atualizado e travestido com outra roupagem. “Quando a escravidão acabou, o racismo teve que se atualizar. O tempo passa, e ele não deixa de existir. Ele está se transformando, o tempo todo, em outras formas de escravização, só que agora psíquicas e simbólicas”, destaca.
Rejane Nunes, a primeira psicóloga indígena formada pela UFRGS, foi a segunda palestrante. Natural da terra indígena de Nonoai, no norte do Rio Grande do Sul, ao se apresentar, revelou que seu verdadeiro nome é Rejane Paféj Kaingang, significando paféj uma árvore guerreira, forte e florida, conhecida pelos não indígenas como ipê. “Eu sou Rejane porque tenho que ter um nome colonizador pra dizer que existo. Sou semente destas mulheres que foram violadas, mas que lutaram todos os dias para que estas vozes não fossem silenciadas e ecoassem o mais longe possível”.
Paféj destacou ter aprendido a visão europeia sobre saúde na academia e que, quando tentava colocar a sua realidade, era silenciada. “Pra nós saúde mental é diferente da visão ocidental, pois engloba vários aspectos. O corpo, a mente, o território, a espiritualidade, tudo está conectado e quando uma parte adoece tudo é afetado. Nosso cocar é sagrado. A pintura, o canto e a dança são momentos terapêuticos. Mas aí vocês vão ver as pessoas brincando de ser índio... nos carnavais, no 19 de abril, pintando a cara de indiozinho, enquanto as nossas crianças morrem pelo simples fato de serem indígenas”.
No encerramento do encontro, foi destaque a pergunta do público sobre quais são os elementos necessários para construir uma universidade antirracista.
Segundo Lucas, depende de intenção sustentada, não basta refletir sobre racismo num dia ou mês. Da mesma forma, ter uma disciplina opcional é dizer que ela não é tão importante quanto as europeias, por isso defende um exercício de revalorização do tema.
Paféj acrescenta que para alcançarmos uma universidade antirracista é preciso sair da bolha e olhar o mundo real. “A gente tem que falar que a saúde é de todos. A gente tá no SUS, a gente tá no SUAS, a gente tá no CAPS, então a gente tem que pensar em falar a língua de todos. Não é chato pedir textos que representam estes povos. É o que eu fazia dentro da academia”, lembra.
As edições seguintes ocorrerão nas terças-feiras, no próximo dia 16 de novembro, com a mesa temática “Negras e negros nas universidades brasileiras” e, no dia 23, com “Estratégias políticas e pedagógicas no movimento de negras e negros”, sempre às 19h, no YouTube da UFCSPA.






