Pílulas de Humanidades

Pílulas de Humanidades é uma ação do Departamento de Educação e Humanidades (DEH) da UFCSPA que visa contribuir com o bem-estar social nesses difíceis tempos de isolamento, oportunizando à comunidade o contato com obras literárias e fílmicas que nos fazem refletir sobre o que nos torna humanos.

O Islã está sempre nas manchetes dos jornais, e não é tão fácil encontrar na imprensa ou na internet quem conheça em profundidade a religião de Muhammad. Por isso mesmo, são importantes trabalhos como Nostalgia do passado: Uma chave de leitura do islã, hoje (Yiné, 2020, coleção Diminuta), da islamóloga italiana Biancamaria Scarcia Amoretti, uma das grandes autoridades na área. Amoretti mergulha no pensamento islâmico, em busca do significado histórico, teológico e político da nostalgia - o sentimento da perda de um lar e da vontade de regresso - para os fiéis de uma das maiores religiões do planeta. E o mais interessante para quem não é da área: Amoretti parte da sua imensa erudição de islamóloga para nos ajudar a entender as atualidades com que somos bombardeados todo dia sobre o mundo muçulmano, das matrizes religiosas do regime dos aiatolás no Irã à nostalgia que leva as populações islâmicas imigradas na Europa a voltar à sua religião ancestral. Apesar de ouvirmos muito sobre o Islã, ele permanece quase desconhecido para nós, e daí as fantasias que o cercam, para o bem e para o mal. Ler uma especialista como Amoretti e um texto com essa qualidade é uma boa maneira de ao menos vislumbrarmos a complexidade de uma realidade cultural que temos de conhecer para entendermos o mundo que nos espera.

Rodrigo de Lemos é professor de língua e cultura francesa do DEH/UFCSPA.

Você gosta de Filosofia? Então, deixe-se encantar por Merlí, professor de filosofia catalão que ensina alunos do equivalente ao ensino médio no Brasil. Ideias filosóficas são o ponto de partida para reflexões sobre o presente A série da Netflix se passa em Barcelona, os atores falam catalão. Ah, como qualquer boa série, também há muito romance...

Ana Carolina da Costa e Fonseca é professora de Filosofia na UFCSPA.

Um de meus escritores preferidos é João Guimarães Rosa, pois ele trabalha na nervura da palavra, fazendo com que nós, leitores, sintamos no nosso eu mais profundo o reverberar das palavras expostas. Sua precisão é tanta, que quando não encontra palavra, inventa-as. Guimarães Rosa, é, sem dúvida, o maior neologista da língua portuguesa, tanto que inspirou escritores como o moçambicano Mia Couto a forjar suas palavras também. Mas não é fácil ler Rosa. É preciso de treino, tanto de vida quanto de leitura. E antes que alguém pegue o seu magnífico romance “Grande sertão: veredas” e o deixe de lado, quero deixar uma dica: comece pelos contos! Com as Primeiras estórias (1962), você vai conseguir ir entrando aos poucos no mundo mágico de Guimarães Rosa: entender seu vocabulário próprio, seu ritmo, seus personagens, suas lindas metáforas. Você pode não se apaixonar à primeira vista, mas certamente vai aprender a amar esse magnífico escritor.

Ana Boff de Godoy é professora de humanidades da UFCSPA.

Em novembro de 2017, ativistas desfraldaram uma bandeira LGBT durante um show de rock num estádio do Cairo e acabaram na cadeia. A banda no palco era o Mashrou' Leila, principal nome da cena indie no Oriente Médio (sim, isso existe!). Ex-estudantes de arquitetura e design da Universidade de Beirute, os membros do Mashrou' Leila são tão multiculturais quanto o próprio Líbano: um é muçulmano, o outro é druso, o terceiro é cristão, e há também um armênio. Em álbuns como Ibn El Leil (2015) e The Beirut School (2019), todos disponíveis no Spotify, eles misturam rock, música eletrônica e elementos tradicionais armênios. As sofisticadas letras do vocalista Hamed Sinno, que canta em árabe e é ativista dos direitos humanos, abordam temas ultra-contemporâneos, como a questão Israel-Palestina, a violência, as armas, a sexualidade no mundo árabe, a liberdade individual e o carcomido sistema político libanês. Por isso, eles foram banidos em muitos países árabes. Mas fazem tours pelo mundo, sobretudo nos Estados Unidos e na Europa, e também já vieram ao Brasil. Mostram que existe um outro Oriente Médio, para além dos clichês - criativo, moderno, aberto, refinado e ávido por liberdade.

Rodrigo de Lemos é professor de língua e cultura francesa do DEH/UFCSPA.

José Eduardo Agualusa é um dos maiores escritores da atualidade. Com O vendedor de passados (Dom Quixote, 2004), venceu o Independent Foreign Fiction Awards, além de já ter recebido o cobiçado International Dublin Literary Award. Em suas histórias, saboreamos a língua portuguesa de Angola e a cor daquela cultura, num caleidoscópio de imagens, nomes, sons, sonhos, memórias, ficções e realidades. Neste livro, nos deparamos com um improvável narrador, uma osga (ou lagartixa) erudita, que conta a história do seu amigo, Félix Ventura, um albino (também erudito) cujo trabalho é criar passados honrosos para vidas insossas. Será nosso passado também uma grande ficção?

Ana Boff de Godoy é professora de humanidades da UFCSPA.